Como conduzir uma entrevista psiquiátrica

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por ISMD

Todo bom tratamento começa com uma boa conversa entre paciente e médico. E quando se trata da saúde mental não é diferente. Nesse sentido, a condução adequada de uma entrevista psiquiátrica é fator chave para o sucesso do acompanhamento médico e evolução do paciente. 

De fato, a entrevista é um recurso valiosíssimo do psiquiatra. Porém, para dominá-lo é essencial entender os diversos fatores que levam a este único ponto de convergência: a coleta de informações e o entendimento do real quadro do paciente.

Qual o verdadeiro papel do deste especialista? Quais os limites e barreiras do seu trabalho e o que é considerado certo ou errado em seu campo de atuação? Veja a resposta para estas e outras perguntas no artigo que segue!

Psiquiatria: a arte de curar a alma

A palavra “psiquiatria” tem origem grega e dá nome à arte de curar a alma. Essa especialidade da Medicina diz respeito à prevenção, diagnóstico e tratamento de diferentes sofrimentos mentais, sejam de natureza orgânica ou funcional. Sendo assim, a psiquiatria cuida da saúde mental como um todo.

Apesar de a especialidade ter apresentado seu valor através das gerações, há quem negligencie os cuidados com a mente. Por outro lado, os números não mentem e apontam quadros cada vez mais preocupantes de incidência de transtornos mentais na população. 

Brasil: o campeão de casos de depressão na América Latina

A depressão é a doença do século e você com certeza já ouviu isso. Saiba que não há exagero nessa afirmativa.

A depressão é uma doença psiquiátrica crônica. E ela é quem mais leva pacientes aos consultórios. Apesar de não ser o único transtorno existente, entender sua incidência populacional ajuda a entender o contexto sociocultural em que vivemos e a importância de profissionais que zelem pela saúde mental.

Aliás, estima-se que a depressão será a doença mais incapacitante do planeta até 2020!

Somente no Brasil, de que se tem registro, quase 6% da população sofre com a doença. Isso representa alarmantes 11 milhões de pessoas. Por outro lado, a ansiedade atinge mais de 18 milhões de brasileiros e essa não é uma realidade apenas do nosso país. 

Diante desse cenário, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a saúde mental como prioridade global de saúde e desenvolvimento econômico. Isso é resultado de um dos compromissos firmados pelo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável, desenhado pela (OMS).

Tal objetivo faz referência à “saúde e bem-estar” e, para que seja alcançado, é imprescindível a atuação de profissionais qualificados.

O papel do psiquiatra

Nesse cenário de pandemia emocional, o médico psiquiatra é imprescindível. Afinal, ele está à frente dos processos de prevenção, diagnóstico e tratamento desses transtornos. Seu campo de atuação é altamente abstrato e se inicia desde o primeiro contato com o paciente.

O faz um bom psiquiatra?

Devido à natureza abstrata do trabalho do profissional, grande parte dele é baseado em percepções. Isso significa que deve ser perspicaz ao observar o paciente quanto a: aparência, atitude, forma de falar e se posicionar.

Isso porque todos esses aspectos são insumos para uma identificação minuciosa de seu funcionamento psíquico. Além da observação, saber ouvir e direcionar a consulta é outra peça fundamental na avaliação psiquiátrica.

Nesse sentido, ele não deve parecer ameaçador, ou um investigador assíduo. Ao contrário, é importante que se posicione de modo empático, ou seja, tenha empatia e se comunique com o sofrimento do outro. 

Assim, com essas qualidades, o psiquiatra poderá conduzir sua avaliação psiquiátrica de bom modo.

A entrevista psiquiátrica

A entrevista psiquiátrica é o que permite ao médico entender o funcionamento psíquico do paciente e concluir o estado de sua saúde mental.

Vamos dissecar um pouco esse assunto?

Objetivos da entrevista

Em sua obra “Entrevistas clínicas vistas como interações verbais: uma perspectiva multidisciplinar”, Grossen e Orvig trazem os objetivos da entrevista clínica:

  • construir um diagnóstico;
  • fazer terapia;
  • elucidar informações sobre o paciente.

É através dela que o especialista estabelece uma relação profissional com o paciente, possibilitando uma interação baseada na confiança, com o mínimo de interferência possível.

Tipos de entrevista

Existem três abordagens centrais para a entrevista clínica: a aberta, a estruturada e a semi-estruturada.

No caso da entrevista psiquiátrica, embora elas não sejam padronizadas, o tipo semi-estruturado é o mais utilizado. Essa preferência é devido ao fato de ser um modelo mais flexível. 

Apesar de o médico ter um parâmetro com as informações essenciais a serem obtidas, ele deve ter uma margem livre para dirigir a entrevista. Dessa forma, poderá preencher a história clínica e fazer um exame das funções mentais da melhor maneira possível.

Como fazer uma entrevista psiquiátrica?

Mais importante que entender os tipos de entrevista é saber conduzi-la na prática. Tendo uma postura de suporte e compreensão, o profissional conduzirá de modo a formular suas hipóteses.

Hipóteses diagnósticas

Passadas as primeiras observações, é importante ouvir a história de vida do paciente e o que o levou a buscar ajuda médica. Entender seus antecedentes pessoais e sua percepção sobre sua própria história é essencial para desvendar o que se passa em sua mente.

A partir desse entendimento, o médico começa a ter recursos para formular sua hipótese diagnóstica, que é o estabelecimento da provável condição do paciente.

Ela será formulada a partir do que o paciente expôs sobre sua vida, tanto sua percepção interior quanto a exterior. Muitas vezes desconsiderada, a percepção do próprio paciente é importante para compor sua história e anamnese.

Anamnese

A anamnese é o termo utilizado para se referir ao momento em que o histórico da doença do paciente psiquiátrico é levantado. Difere um pouco da anamnese médica, devido ao seu aspecto mais subjetivo. 

Suas principais preocupações são:

  • manter um clima favorável e de confiança, de modo que o paciente consiga se abrir;
  • compreender as relações do indivíduo com o meio ambiente e a família em que cresceu;
  • entender as emoções e sentimentos do paciente;
  • conhecer períodos críticos ou marcantes da vida pregressa da pessoa;
  • descobrir se há alguma vulnerabilidade biológica, como antecedentes familiares;
  • definir os traços de personalidade do indivíduo;
  • compreender suas forças e fraquezas e seu modo de reagir a diferentes situações.

Feita a anamnese, o psiquiatra deverá reunir a história construída aos dados mensuráveis relatados e coletados. Com essas ferramentas e a entrevista psiquiátrica bem conduzida, ele será capaz de fortalecer sua hipótese diagnóstica.

A importância de um lugar aconchegante

O ambiente em que a entrevista será conduzida merece destaque. É necessário que seja um ambiente hospitalar, um ambulatório, um pronto-socorro ou uma clínica, com privacidade no local. 

Lembre-se que a pessoa dividirá até seus aspectos mais íntimos. Portanto, até a presença de familiares pode incomodar. Pensando em sua saúde mental, considere o paciente em primeiro lugar e solicite entrevistas à sós. 

Limites da entrevista

O primeiro limite que o psiquiatra costuma enfrentar é a não-colaboração do paciente ou sua dificuldade em compartilhar suas informações. 

Como o médico deve estar atento a tudo, este próprio cenário já oferece percepções sobre o estado mental do paciente, seu nível de consciência e capacidades motoras.

Outros possíveis limitadores são a simulação e a dissimulação que a entrevista permite. Como grande parte da entrevista é baseada em relatos, a astúcia do profissional é fator determinante na detecção de tais situações.

Na dissimulação, o que geralmente ocorre é a negação de um sintoma que o indivíduo sabe da existência. Na simulação, ocorre o contrário: o relato de um sintoma que de fato não existe.

O que mais o especialista deve analisar para conduzir uma boa entrevista?

À medida em que o profissional faz perguntas e analisa o paciente, dividir seu trabalho em funções pode ajudar a evitar confusões diagnósticas e facilitar sua análise.

Entre essas funções, podemos citar: 

  • o nível de consciência do paciente;
  • sua atenção e concentração, ou seja, sua capacidade de focalizar intencionalmente em um objeto;
  • a orientação: o quanto o paciente é capaz de estimar precisamente o tempo e o espaço em que se encontra;
  • a memória;
  • o pensamento e a forma de o paciente acessá-lo;
  • a linguagem, sua forma e conteúdo;
  • a sensopercepção e a ausência ou não de alucinações;
  • o juízo e a crítica, ou seja, a capacidade de dar valor a fatos e ideias;
  • o afeto e humor, isto é, suas manifestações emocionais;
  • volição, impulso e prospecção: sua vontade, impulso e prospecção para agir;
  • psicomotricidade ou exteriorização comportamental motora dos estados psíquicos;
  • inteligência.

É possível verificar cada uma dessas funções mais detalhadamente, e sua avaliação junto à anamnese já fornece um roteiro básico para a condução da entrevista.

Exemplo de um roteiro

A entrevista psiquiátrica costuma ser semi-estruturada. O roteiro pode ser uma boa base para sua condução, mas não resume todo o trabalho do médico.

Portanto, vamos apresentar um exemplo de roteiro, trazido por este artigo em Semiologia Psiquiátrica. Ele conta com os seguintes tópicos a serem avaliados.

  1. identificação;
  2. queixa principal;
  3. história da moléstia atual;
  4. antecedentes: história médica e psiquiátrica;
  5. antecedentes: história pessoal;
  6. antecedentes: história familiar;
  7. personalidade pré-mórbida;
  8. exame físico;
  9. exame psiquiátrico – esse é o ponto em que as funções serão exploradas.

A condução de uma entrevista psiquiátrica envolve aspectos humanos que, às vezes, nem mesmo o paciente tem total percepção. Por isso, reafirmamos a necessidade de que o psiquiatra seja capaz de fornecer o diagnóstico correto e, dessa forma, o melhor tratamento possível.

Mas não é do dia para noite que se forma este profissional. Ele deve desenvolver as características essenciais à sua atuação, acompanhada de uma formação de ponta. Por isso, a Faculdade ISMD firma o compromisso de formar profissionais competentes e que saibam alinhar teoria e prática.

Conduzir uma entrevista psiquiátrica é um trabalho que vai muito além da teoria. A Faculdade ISMD oferece o melhor curso de pós-graduação em Psiquiatria para quem se deseja tornar um especialista na área. Conheça nossa grade curricular.

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